De todos os males que atormentam a D. Beatriz, o que mais me impressiona é a sua solidão. Mulher de setenta e alguns anos, viveu sozinha ao lado de um homem de muitas mulheres «tantas, querida, que todas amarradas faziam 3 pontes sobre o Tejo» e criou filhos desconhecidos.
Hoje de manhã telefonei-lhe, preocupada:
- Então D. Beatriz, esperou sozinha muito tempo?
- Não minha querida, não esperei muito mais, o médico viu-me pouco tempo depois. Estava tão mal disposta, não tinha comido, não sabia se me iam buscar, estava tão preocupada com o meu marido doente, sozinho em casa.
- E o médico, que disse?
- Não percebi bem, sabe, estava sozinha, tão cansada, foi tão difícil subir para a marquesa... Ele mexeu, apertou, fez doer, disse-me que o catéter provavelmente não ia funcionar, e agora querida, que fazemos?
- Vamos ver, vamos ver – respondi impotente.
- ... Sim... Para a semana vamos ver... Aaah!... Se não fossem vocês, minhas amigas. Não me abandonem!... Não me deixem sozinha!...
Cheguei ao serviço e deparei-me com uma situação um pouco constrangedora.
Um familiar de um doente terminal, extremamente ansioso, sabendo que a vida do seu ente querido está prestes a chegar ao fim, grita com todos os que o rodeiam dando origem a uma situação capaz de pasmar quem chega.
Lidar com doentes em fase terminal é uma tarefa delicada que exige conhecimentos, empenho pessoal e dedicação. É inevitável que se efectue todo um caminho até se experimentar a sensação de acompanhar estes indivíduos no seu percurso final.
Mas, e os familiares? Como os encarar? Como os confortar? Como lidar com eles? Será que conseguimos colocar-nos no seu lugar e aceitar que um dia se desiste?
No ENFERMEIRAME é descrita uma situação infelizmente vulgar na nossa sociedade. O que envergamos, o que fazemos, reflecte - quase sempre - o que somos. Se lançarmos um olhar sobre a profissão, facilmente detectamos diferentes formas de ser enfermeiro. Independentemente de todas serem válidas e procurarem o mesmo fim, pergunto que reflexo têm os nossos comportamentos na imagem social da profissão.
Se quisermos fazer um "retrato-tipo" da enfermeira actual, do ponto de vista do público, decerto que "escolha por vocação e dedicação" seriam ainda palavras-chave para definir a «boa enfermeira» - um ser sempre disponível, esquecido de toda a aspiração individual, dos seus horários e dos próprios encargos familiares, um ente submisso e anónimo, executante de tarefas médicas, pouco sensível ao mundo que o rodeia.
Como contraposição a esta imagem compete à enfermagem actual, a iniciativa e a decisão de reconhecer no campo do cuidar toda a essência da sua prática, de forma a modificar perfis totalmente desajustados e abusivos da função de enfermagem, resultantes de um conjunto de crenças e valores herdados do passado e ainda hoje enraizados.
Compete-nos demonstrar e tornar visível que a enfermagem está relacionada com o cuidar da pessoa na globalidade, de forma humanizada e diferenciada, e que o seu valor resulta da forma como o profissional de enfermagem fôr capaz de captar as necessidades específicas da pessoa e, a partir daí, planear, programar e desenvolver os cuidados, utilizando o seu suporte técnico-científico, e a sua capacidade afectiva.
Pretendemos criar um espaço que alie a discussão à criatividade, que fomente a interactividade e nos enriqueça como pessoas.