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Com Pinga de Sangue

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16
Out17

Escassez de enfermeiros?


Beatriz

enfermeiros em greve.png

 

A escassez de profissionais de enfermagem ameaça a vida das organizações prestadoras de cuidados de saúde e, mais grave, a vida dos cidadãos que a estas ocorrem.

O sucesso de todos os planos de “reforma”, um termo vitima de grande desgaste nos últimos 15 anos, assim como os planos de investimento dos agentes do sector privado/social, no contexto do nosso Serviço Nacional de Saúde, é ameaçado por este factor.

 

Sondagens Internacionais

 

Curiosamente, sondagens internacionais em que se pede ás pessoas que classifiquem as profissões mais prestigiadas começam a atribuir à profissão de enfermagem um lugar entre as cinco profissões mais prestigiadas do mundo ocidental entre investigadores/cientistas, professores, clínicos, assistentes sociais, oficiais do exército ou até bombeiros.

 

De facto, em diferentes trabalhos do género a profissão de enfermagem distingue-se como uma das profissões a que se atribui um crescente papel de modernização dos cuidados de saúde em completa sintonia com a própria evolução científica da profissão clínica.

 

Outros estudos, muito mais sérios que as simples sondagens, confirmam a tendência e indicam que a crescente escassez de enfermeiros qualificados experientes aumenta o risco e questiona o sucesso da intervenção das unidades prestadoras de cuidados de saúde. Estão vidas humanas em risco. Estão em risco os resultados do investimento no sector da saúde. Não se trata, porém, do “value for money” mas antes da avaliação dos “outcomes” da intervenção em cada cidadão e utente dos serviços de saúde.

 

Um dos relatórios que mais impacto teve nesta análise internacional no contexto da investigação em gestão em saúde em que trabalho faz mais de quinze anos, foi o da Joint Commission Expert Roundtable focalizado na transformação do local de trabalho da enfermagem. De entre as suas recomendações fundamentais destaco a necessidade de promover o desenvolvimento científico da enfermagem. Falhar neste propósito de desenvolvimento social (!) significa o aumento de mortes evitáveis, complicações no tratamento dos doentes, aumento da duração do internamento desnecessário, assim como o risco de infecção hospitalar e outros efeitos negativos sobre o bem-estar, recuperação e reabilitação de cada doente.

 

Em diversos estados da União Europeia, incluindo Portugal, são milhares os postos de trabalho de enfermagem disponíveis. Este facto, deu lugar, em contextos nacionais onde a regulamentação é deficiente, ao fenómeno do “duplo-emprego de enfermagem” que, claramente, contribui para o aumento do risco e questiona a potencial melhoria da qualidade dos cuidados de saúde no seu global afectando, inclusive, a qualidade dos cuidados clínicos.

 

De entre os contextos profissionais onde este problema é mais preocupante, destaco os serviços de urgência hospitalar na sua dinâmica nacional de utilização indevida e excesso de população, cancelamento de cirurgias electivas, descontinuidade dos cuidados de saúde entre serviços dentro do mesmo hospital, nos cuidados na comunidade incluindo os chamados cuidados continuados, domiciliários e de promoção da saúde comunitária.

 

Embora a escassez de outros profissionais de saúde seja um factor grave de desequilíbrio na prestação de cuidados de saúde, é nos cuidados de enfermagem que reside o factor central de promoção de potenciais falhas qualidade e impacto sobre a qualidade de vida do utente dos serviços de saúde. Por isso, é pura demagogia a enunciação de um discurso organizacional de promoção da qualidade quando a prioridade dos “gestores” de organizações hospitalares é o corte de despesas com o “pessoal de enfermagem” reduzindo o rácio cama/enfermeiro e desinvestindo da formação avançada e apoio à qualidade de vida de cada enfermeiro. É ainda maior demagogia o discurso político de desenvolvimento de um sistema de saúde baseado nos cuidados primários quando, em Portugal, este é um sector sem incentivos, inclusive financeiros, ou perspectivas de desenvolvimento pessoal para os jovens enfermeiros altamente qualificados.

 

No contexto nacional, falta a Ordem dos Enfermeiros definir o Acto de Enfermagem e impor rácios de enfermeiro/doente, sobretudo nas unidades hospitalares. Ao ministério da saúde falta definir uma política de recursos humanos que adopte as tendências internacionais.

 

Entretanto, Portugal vai transformar-se em “exportador” de enfermeiros altamente qualificados cedidos a “custo zero” aos estados mais ricos da EU…

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